Violência doméstica contra a mulher

 

                     
Por Jully Mairinck

Com esse texto, meu primeiro no site, eu pretendo falar sobre violência contra a mulher, em específico a violência doméstica.
Com certeza algum de vocês, leitoras e leitores, já devem ter ouvido a seguinte frase a respeito de uma mulher recém separada de um relacionamento abusivo: “Fulana não tem vergonha na cara. Daqui a pouco volta pra fulano”.
Na experiência que tive de um ano em uma delegacia legal como estagiária, pude acompanhar um pouco desse tipo de situação. Praticamente todos os dias chegavam mulheres denunciando seus companheiros por algum tipo de agressão. Umas com marcas físicas claras, outras com marcas profundas, que não somos capazes de enxergar apenas olhando para elas. E sim, muitas vezes no dia seguinte voltavam querendo “retirar a queixa”. Bem, “falta de vergonha na cara”? Lhes garanto que não. A questão é um pouco mais complicada.
Deixo no final um link muito útil contendo dados e estatísticas recentes sobre violência contra as mulheres. Inclusive esse site é muito interessante e merece atenção. O que pretendo é apenas falar um pouco do que eu pude observar.
O problema começa muito antes da vítima procurar ajuda. E engana-se também quem pensa que começa apenas dentro do lar. Vem bem antes disso, é historicamente construído. Sem me alongar, vamos aos exemplos:  O homem com o trabalho externo, o provedor e a mulher considerada fisicamente incapaz de exercer essa função, com o trabalho do lar. Principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial é que as mulheres começaram a ser recrutadas às pressas  para trabalhos externos. Na política, onde não havia espaço para a mulher e até o ano de 1932 não se podia votar, e que apesar de algumas melhorias, como cargos de presidência sendo ocupados em alguns países por mulheres, é possível ver que a parcela é mínima ainda (aqui vai um bom exemplo: todos os novos ministros do governo Temer são homens). Muitas religiões ainda pregam a mulher submissa, “bela, recatada e do lar”, que serve ao homem e lhe deve obediência. E se aqui no nosso país se vê tantos relatos de estupros e violência contra a mulher, experimente procurar notícias sobre a Índia e a África do Sul, por exemplo. É triste e revoltante.
Pensando nessa construção e partindo para dentro dos lares, a vítima então resolve procurar ajuda em uma delegacia. Um local onde a predominância ainda é masculina. Eu, como simples estagiária que era no início da faculdade, pude ver diversas vezes questionamentos policiais sobre a veracidade da denúncia. A vítima que provavelmente pensou mil vezes antes de ter a coragem de registrar a ocorrência, e além de todo o sofrimento que passou, não consegue ter o acolhimento adequado. Se seguir com a atitude de denunciar, ainda tem diversos outros problemas, como ter que ir ao hospital e depois ao IML fazer o exame de corpo de delito para provar a agressão. E se não há marcas? E se foi uma agressão um pouco mais antiga mas somente agora ela conseguiu denunciar? Isso falando de violência física. Sem contar as diversas outras formas de violência. Frases como “Se você denunciar ele vai ser preso, aí não tem volta, viu?”, ou “E como você vai se virar sem ele?”, ou até mesmo “Já pensou no que seus filhos vão pensar?”, também são ditas por alguns profissionais despreparados para esse tipo de situação. Como confiar e chegar até as autoridades, se até lá são desencorajadas?
Aumento da violência após os parceiros saberem da denúncia, impossibilidade financeira de viver sem o parceiro, filhos, falta de apoio da família, entre outros fatores são motivos para essa mulher desistir da denúncia. E é lógico, a dependência emocional é algo decisivo pra esse tipo de situação. Sem contar no sentimento de obrigação em manter o casamento.
Se você conhece uma mulher que é agredida, não a julgue, seja empático, ajude. Essa vida é responsabilidade nossa também. Não caia no famoso ditado: “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Aconselhe-a a procurar ajuda psicológica, e é claro, denunciar.

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